A cultura do milho de segunda safra (safrinha) no Brasil, especialmente em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná, enfrenta vários desafios fitossanitários. Entre eles, a praga subterrânea Diabrotica speciosa, conhecida como vaquinha-verde-amarela na fase adulta e larva-alfinete na fase larval, destaca-se como responsável por danos significativos ao sistema radicular do milho. 

Compreender a dinâmica dessa praga sob déficit hídrico é crucial para o planejamento de estratégias de manejo eficazes. O ciclo da D. speciosa no milho, combinado com a realidade climática da safrinha, que frequentemente apresenta períodos de seca durante o desenvolvimento vegetativo, exige uma abordagem técnica apurada. 

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Quem é Diabrotica speciosa e por que ela é problema no milho safrinha 

Para entender o impacto da praga e estruturar um programa de manejo eficaz, é fundamental conhecer a biologia da Diabrotica speciosa, seu ciclo de vida e por que as condições da segunda safra criam um ambiente particularmente favorável ao seu desenvolvimento. 

Biologia e ciclo de vida da vaquinha-verde-amarela 

Diabrotica speciosa pertence à família Chrysomelidae. Em sua fase adulta, a vaquinha-verde-amarela se alimenta de folhas jovens, pólen e estilos-estigmas, podendo impactar a polinização.  

No entanto, é na fase larval, como larva-alfinete, que a praga causa os maiores danos econômicos, atacando diretamente o sistema radicular. 

Os adultos oviposicionam no solo preferencialmente próximo às plântulas de milho, geralmente entre os estágios V2 e V4. Após 6 a 10 dias, as larvas eclodem e iniciam a fase de alimentação rizófaga.  

Esse estágio larval é o mais prejudicial: as larvas, que atingem de 8-10mm de comprimento no terceiro ínstar, perfuram as raízes nodais, abrem galerias e se alimentam dos tecidos internos, passando por três ínstares durante 18 dias em média. 

A fase de pupa ocorre no solo e duraaproximadamente 7  dias. 

Por que a safrinha cria condições favoráveis à praga 

A segunda safra de milho é frequentemente cultivada em sistema de sucessão após a soja, no regime de plantio direto. Essa combinação pode criar ambiente propício para a D. speciosa: a palhada do plantio direto oferece proteção aos ovos e larvas, favorecendo sua sobrevivência.  

No entanto, as condições hídricas variáveis da safrinha, com períodos de veranicos e solos mais secos em algumas fases, também podem atuar como fator limitante.  

Compreender esse balanço é fundamental para o planejamento do manejo. 

Como o solo seco afeta a sobrevivência das larvas e o dano ao milho 

As condições de umidade do solo são determinantes para a sobrevivência e o desenvolvimento das larvas da D. speciosa. O déficit hídrico, característico de muitas áreas produtoras de milho safrinha, exerce pressão significativa sobre a praga, com impactos diretos em sua população e capacidade de causar danos. 

Comportamento das larvas em condições de baixa umidade 

Em condições de baixa umidade, o solo seco afeta diretamente a sobrevivência dos ovos e larvas. A desidratação se torna fator limitante, causando mortalidade significativa, principalmente nos estádios iniciais de desenvolvimento. Solos com umidade muito abaixo do ponto ideal reduzem as chances de eclosão dos ovos e a mobilidade das larvas em busca de alimento e refúgio. 

A tolerância à seca varia entre os ínstares larvais, mas, de modo geral, o ambiente seco dificulta a perfuração das raízes e o estabelecimento das larvas. Essa dinâmica pode, em alguns casos, atuar como mecanismo natural de controle da população no Cerrado brasileiro.  

No entanto, é importante considerar que a praga pode buscar zonas mais úmidas no perfil do solo, se disponíveis, para sobreviver. 

Impacto do dano radicular no estande, tombamento e produtividade 

A alimentação das larvas compromete a estrutura e a funcionalidade das raízes, diminuindo drasticamente a capacidade da planta de absorver água e nutrientes. Esse impacto é amplificado em cenários de déficit hídrico, onde a planta já está sob estresse. 

Plantas com sistemas radiculares danificados tornam-se mais suscetíveis ao tombamento e ao acamamento, especialmente em fases avançadas ou sob ventos fortes.  

Pesquisas indicam que densidades de 4,5 larvas por planta já podem causar dano considerável nas raízes, enquanto 9,3 larvas por planta elevam o dano significativamente, com redução acentuada no peso de grãos.  

As perdas de produtividade podem chegar a até 13% em infestações severas. 

besouro cucúrbita (Diabrotica speciosa) em cima de uma folha doente

Monitoramento e avaliação do dano de Diabrotica no campo 

O sucesso no manejo da D. speciosa no milho safrinha depende de monitoramento rigoroso e avaliação precisa dos danos. A identificação precoce da praga e a quantificação de seu impacto são cruciais para a tomada de decisão.  

Sem monitoramento eficiente, os danos podem passar despercebidos até que sejam irreversíveis. 

Como identificar o ataque de larvas na raiz do milho 

Os sintomas na parte aérea, como amarelecimento, murcha ou tombamento, podem ser confundidos com deficiências nutricionais ou estresse hídrico. Por isso, a avaliação direta do sistema radicular é indispensável. 

Para a inspeção, recomenda-se arrancar cuidadosamente algumas plantas de diferentes pontos da lavoura, lavar as raízes para remover o solo e facilitar a visualização. Os principais sinais de ataque incluem: 

  • Perfurações e galerias: pequenos orifícios e túneis nas raízes que comprometem a integridade dos tecidos. 
  • Raízes atrofiadas: menor desenvolvimento e volume, com aparência raquítica. 
  • Coloração escurecida: áreas danificadas podem apresentar necrose ou coloração mais escura. 
  • Corte eenfraquecimento: em casos severos, as raízes podem estar seccionadas ou severamente danificadas, comprometendo a ancoragem e facilitando o tombamento da planta. 

É importante focar na região próxima ao colo da planta e nos primeiros 10 cm do solo, onde a maioria  das larvas se concentram, especialmente em solos com umidade adequada conforme dados da Embrapa Milho e Sorgo

Níveis de dano e tomada de decisão para controle 

A tomada de decisão deve ser baseada no Nível de Dano Econômico (NDE), que indica o ponto em que o custo do controle é superado pela perda de produtividade. A escala de danos radiculares de 1 a 6 (utilizada no Brasil) ou 1 a 9 (utilizada internacionalmente) é uma ferramenta útil: nota 1 indica raízes intactas, enquanto notas mais altas representam danos crescentes até o corte total e tombamento da planta. 

Para o milho safrinha, onde o estresse hídrico é um agravante, a tolerância a danos pode ser menor. Consulte as publicações da Embrapa Milho e Sorgo para diretrizes específicas adaptadas à sua região e sistema de produção. 

Estratégias de manejo e controle de Diabrotica speciosa 

O manejo eficaz da D. speciosa em milho safrinha requer uma abordagem integrada, combinando diferentes estratégias que visam reduzir a população da praga e minimizar os danos ao sistema radicular.  

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é a base para um controle sustentável e eficiente. 

Tratamento de sementes: eficácia e limitações no controle larval 

O tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos é uma das principais ferramentas para o controle inicial das larvas de Diabrotica no milho.  

Essa prática oferece proteção às plântulas nas fases mais vulneráveis, quando o sistema radicular está se desenvolvendo.  

Os inseticidas sistêmicos, geralmente neonicotinoides ou outros grupos com ação translaminar, são absorvidos pela semente e distribuídos para a plântula, conferindo proteção por um período determinado. 

A eficácia é alta na proteção inicial, mas tem limitações: a persistência é finita e a proteção pode não cobrir todo o período crítico de ataque larval. A eficiência também pode ser afetada  ser afetada indiretamente: em solos muito secos, a própria população larval pode ser reduzida naturalmente, alterando a pressão de seleção e a necessidade de proteção.  

O tratamento de sementes deve ser parte de uma estratégia mais ampla, consultando sempre o MAPA Agrofit para os produtos registrados. 

Manejo cultural: rotação de culturas e plantio direto 

rotação de culturas é uma das ferramentas mais eficazes, pois interrompe o ciclo de vida da praga ao alternar o milho com culturas não hospedeiras, como leguminosas.  

Isso reduz a disponibilidade de alimento para as larvas, diminuindo a população no solo para a safra seguinte. 

plantio direto, apesar de em alguns cenários favorecer a sobrevivência inicial dos ovos pela umidade da palhada, apresenta vantagens no longo prazo para a saúde do solo e o manejo de pragas.  

Solos bem estruturados e com matéria orgânica promovem a atividade de inimigos naturais.  

O manejo adequado de adubação e da umidade do solo também fortalece a planta e a torna mais resistente aos ataques. 

Estratégias de controle de Diabrotica speciosa em milho safrinha 

Método de controle Momento Eficácia Observações técnicas 
Tratamento de sementes Pré-plantio Alta para proteção inicial Proteção limitada no tempo; ação sistêmica. Escolher produtos com grupos químicos adequados. Consultar MAPA Agrofit. 
Rotação de culturas Planejamento anual/bienal Alta para redução populacional Interrompe o ciclo da praga. Alternar com não hospedeiras como  oleaginosas. 
Plantio direto Contínuo Variável, benéfico a longo prazo Melhoria da saúde do solo e dos inimigos naturais. Atenção à umidade residual da palhada na fase de oviposicão. 
Monitoramento de campo Semanal, da emergência ao V6 Essencial para tomada de decisão Inspeção de raízes e contagem de larvas. Uso de armadilhas para adultos. Base para o NDE. 
Controle biológico Pré-plantio ou pós-emergência Promissor, complementar Uso de fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae. Requer condições de umidade adequadas para eficácia. 
Híbridos Bt Híbrido escolhido no planejamento Alta para alvos específicos Híbridos com proteínas Cry específicas para coleópteros  (como Cry3Bb1) oferecem proteção potencial, mas sua disponibilidade comercial no Brasil é limitada. Verificar disponibilidade e registro junto ao MAPA. 

Fonte: Embrapa Milho e Sorgo; MAPA/Agrofit; literatura técnica de Manejo Integrado de Pragas no milho safrinha brasileiro. 

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